Empresas buscam renegociar contratos com advogados

24 de abril de 2020 · Clipping

Beatriz Olivon | Valor Econômico

Clientes pedem descontos a bancas ou prorrogação dos prazos de pagamento.

Clientes estão procurando os escritórios de advocacia para renegociar contratos. Buscam descontos ou postergar pagamentos em meio à crise gerada pela covid-19. Para atender os pedidos e manter os relacionamentos, as bancas tentam também reduzir seus custos e usar o dinheiro acumulado em caixa.

Ao contrário de outros setores da economia, os escritórios de advocacia não têm uma grande cadeia de fornecedores com quem renegociar valores. Sócios ouvidos pelo Valor destacam que os principais gastos são com funcionários e aluguéis. Como não querem mexer em suas equipes, restaria então renegociar o valores de locações e fazer algumas economias.

Há todo tipo de pedido por parte dos clientes, segundo Tito Amaral de Andrade, sócio administrador do escritório Machado Meyer. Pedem descontos e extensão no prazo de pagamento. Mas tudo depende, acrescenta, de como foi firmado o contrato com o escritório. “Nós também temos nossas dificuldades. É isso que tentamos mostrar”, afirma.

Ainda é cedo para saber o impacto da crise, já que a situação começou a se deteriorar na segunda quinzena de março, de acordo com o advogado. Por enquanto, o plano é manter funcionários. Em áreas mais ociosas, o caminho adotado foi a antecipação de férias.

No escritório TozziniFreire, foram recebidos mais pedidos de negociação dos prazos de pagamentos do que redução de valores contratados. “No momento, os escritórios precisam fazer parceria com os clientes”, diz Fernando Serec, CEO do escritório. “Se eles cortam o pagamento do escritório, não sobrevivemos. E não podemos apertar demais porque sabemos que algumas empresas vão ter diminuição de receitas”, acrescenta.

Das conversas com clientes, o escritório partiu para as negociações com os fornecedores. Por enquanto, com locadores e prestadores de serviços. Também foram suspensas as distribuições de bônus para os sócios. “Qualquer lucro acumulado de exercício anterior foi retido. Foi uma decisão dos sócios para preservar o nosso caixa”, diz Serec.

A banca não pretende reduzir jornada nem salários ou fazer demissões. “Já decidimos que não faremos redução em abril, mas vamos acompanhando caixa no dia a dia”, afirma. Existe um comitê de crise que analisa pagamentos e recebimentos diários para conseguir administrar o caixa, de acordo com o advogado. “Um dos mantras da crise é não prometer o que não se pode cumprir”, afirma Serec.

“O escritório é parte da cadeia econômica de clientes e fornecedores e não está imune à crise”, afirma Guilherme Forbes, sócio do Stocche Forbes Advogados. O objetivo, acrescenta, tem sido preservar relacionamentos, com clientes e empregados.

O escritório também se comprometeu a não reduzir os quadros. Por outro lado, tem tentado atender pedidos de clientes de postergação de pagamento administrando seu caixa. “Analisamos cada caso e procuramos ser compreensivos com clientes assim como pedimos a compreensão de fornecedores”, diz Forbes.

A demanda não diminuiu nesse período, segundo o sócio, mas mudou. Se antes o cliente procurava o escritório para assessoria em uma aquisição, agora ele quer renegociar contratos e aplicar redução de salário a empregados. “Investimentos que seriam feitos há dois meses deixaram de ser urgentes e o cliente entrou no ‘modo crise’”, afirma.

Em outro grande escritório, há medo de não receber os pagamentos que clientes vêm renegociando. “Tem empresa demitindo metade dos funcionários. Isso vai em cadeia”, afirma um sócio, que preferiu não se identificar. Os cortes de custos incluem viagens, eventos, antecipações de férias e também a redução de bônus. “Talvez a gente tenha que trabalhar muito mais e ganhar muito menos.”

Geralmente, os escritórios sentem antes o movimento de desaceleração da economia, assim como a retomada. “Desta vez foi muito abrupto”, afirma Ricardo Chamon, sócio do CSA Chamon Santana Advogados. “A queda foi imediata e muito forte.”

No fim de março, a banca estava participando de cinco operações de fusão em andamento. Apenas duas tiveram prosseguimento e com preocupação em relação ao preço dos ativos, já que o cenário mudou muito.

Neste mês de abril, a demanda caiu no escritório. “As empresas não querem gastar dinheiro com advogado. Por mais que precisem, está todo mundo segurando gastos”, diz Chamon. O atraso nos pagamentos se tornou mais comum, afirma, assim como mudanças na data de vencimento. “Se antes o cliente pagava a cada 30 dias pelos serviços, passou para 45. Não pagar na data ficou comum.”

O escritório tem usado o caixa, que cobre alguns meses de despesas. “Já fui criticado por deixar dinheiro em caixa. Mas agora em meio à crise quem não tem capital para queimar enfrenta mais dificuldade”, afirma Chamon.

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