Contra crise, Cosan reforça o caixa em R$ 7 bilhões

27 de abril de 2020 · Clipping

Stella Fontes, Letícia Fucuchima e Taís Hirata | Valor Econômico

Um dos maiores grupos empresariais do país, a Cosan está reforçando o caixa com R$ 7 bilhões para fazer frente à crise desencadeada pela covid-19. Já foram levantados R$ 5 bilhões e, neste momento, mais R$ 2 bilhões estão sendo captados há 3 dias Empresas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O grupo também avalia que haverá oportunidades de crescimento orgânico e fusão ou aquisição passada a crise.

Segundo o presidente da Cosan, Luis Henrique Guimarães, algumas empresas sairão muito fragilizadas ou não sobreviverão, mas é cedo para supor quais oportunidades de negócio surgirão. “Estamos mais concentrados no lado orgânico e vamos esperar para ver o que vai surgir do lado inorgânico”, disse, lembrando que uma característica do grupo é “a capacidade de firmar parcerias e gerar valor sem a necessidade de ter o ativo”. “Essa deve ser uma característica muito forte no nosso futuro.”

De acordo com o vice-presidente de Finanças da Cosan, Marcelo Martins, praticamente todos os negócios do grupo reforçaram o caixa, com exceção da Cosan S.A., que já vinha antes da crise com disponibilidade robusta. A abordagem, acrescentou, é “bastante conservadora” e os recursos serão usados para refinanciar dívidas com vencimento neste ano. Hoje, em termos consolidados, o caixa do grupo supera R$ 17 bilhões.

Para fazer frente à queda de 50% nas vendas em volume da Moove, o ritmo de produção de lubrificantes foi reduzido a fim de evitar o acúmulo de estoques e pressão no capital de giro. Conforme Guimarães, uma das vantagens da Moove é que, ao contrário dos demais participantes desse mercado, os estoques ficam concentrados na empresa e não na distribuição. Assim, com a retomada da demanda, sua recuperação deve ser mais veloz.

Já a Raízen Combustíveis sofreu forte redução nas vendas, especialmente em grandes cidades, como Rio e São Paulo. “Mas temos visto um pequeno aumento na demanda nos últimos dias, com o afrouxamento do isolamento em alguns Estados e as pessoas saindo um pouco mais de casa”, comentou. No diesel, a queda foi menor do que na média dos combustíveis e ficou em 15%. Já em aviação, a baixa chegou a 80% com cancelamento da maior parte dos voos.

Conforme o executivo, a Raízen tem fornecido suporte e apoio à rede de revendedores, também por meio da entrega de informações e auxílio em relação aos programas lançados pelo governo para confrontar a crise. Apesar desse esforço, alguns postos não devem resistir. “As revendas mais capitalizadas, com as melhores localizações e que foram mais rápidas no ajuste de custos são as que terão melhores perspectivas daqui para a frente”, comentou. Por outro lado, operações menos eficientes terão seu fechamento acelerado pela crise.

Na Comgás, a pandemia resultou em queda do volume vendido a estabelecimentos comerciais e a indústrias. Mas a expectativa é que esse movimento seja compensado, em parte, pelas vendas a residências, que aumentaram entre 9% e 10%. O segmento vem ganhando importância nos últimos anos e representa, hoje, cerca de 35% das margens da companhia. “O impacto será muito maior em volume do que em margens”, afirmou.

No momento, o ponto de atenção para a distribuidora de gás natural são os pagamentos e contas a receber, que devem ser afetados, em algum grau, pela decisão do governo paulista de suspender por 30 dias os cortes de fornecimento a determinados consumidores. Guimarães ressaltou que essa iniciativa foi estruturada com a colaboração da Cosan, que reconheceu a necessidade diante da pandemia.

A Comgás tem monitorado a questão dos pagamentos mas não prevê, por ora, um impacto relevante. Tampouco espera grandes dificuldades para cumprir com o plano regulatório. “Acreditamos que conseguiremos cumprir com o plano regulatório de investimentos, conexão e, muito provavelmente, o de volumes. Se houver desequilíbrio, como consequência das medidas tomadas na pandemia, conversaremos com a agência regulatória e o governo para endereçar isso”, disse Guimarães.

Num momento de retomada após a pandemia, a Comgás vê espaço para aumento das conexões residenciais por parte de consumidores que tiveram dificuldades com o desabastecimento de GLP. “Potencialmente, quando o mercado voltar, [vemos] um ambiente favorável para conexões residenciais por causa da experiência que tiveram durante a pandemia sem gás canalizado”, disse.

Desde março, a Comgás passou para o guarda-chuva de uma nova empresa, a Compass Gás e Energia, criada para reunir ativos e projetos de gás natural e energia elétrica da Cosan. O grupo reconhece que alguns planos para a Compass tiveram de ser adiados, como os que envolvem geração térmica a gás, já que os leilões do governo foram postergados indefinitivamente. Mas a companhia frisou que a aposta no mercado de gás está mantida, e que têm planos de longo prazo para o setor.

Na outra ponta, a empresa de logística Rumo foi o negócio menos afetado na carteira do grupo. Segundo Guimarães, a companhia se beneficiou da boa safra de grãos e conseguiu manter as obras de ampliação de seu terminal ferroviário em Rondonópolis (MT). “O trabalho de construção deverá ser concluído no próximo mês”, afirmou.

O executivo disse ainda que a Rumo terá caixa suficiente para financiar seus investimentos. Questionado por analistas sobre a renovação da Malha Paulista, que voltou a sofrer questionamentos da área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) nos últimos dias, o executivo disse que todo o trabalho que cabia à empresa já foi realizado, e que agora trata-se de uma questão de “governança no governo”. “É uma questão entre TCU e ANTT [Agência Nacional de Transportes Terrestres]”, afirmou

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