A idade em tempos de crise: o ‘grupo de risco’ e o risco do grupo

Mórris Litvak | Estadão

Preconceito etário, visto também durante pandemia, é cruel no mercado de trabalho, onde idade pesa no currículo; é preciso repensar valores de cultura jovem-cêntrica, diz especialista

om o avanço do novo coronavírus pelo País e as discussões a respeito de reabertura das atividades econômicas, tem se falado cada vez mais no “grupo de risco” representado pelos idosos. Apesar da letalidade da doença ser maior entre os mais velhos, é preciso fazer uma análise menos simplista da situação, caso contrário corremos o perigo de taxar todos os idosos do País como frágeis.

Com isso, em vez de ajudar estaremos reforçando ainda mais o preconceito etário existente em nossa sociedade, que já é enorme. Existe até um nome para isso: idadismo ou ageismo (de ageism, em inglês). São termos tão novos que o corretor não os reconhece enquanto eu escrevo esse texto, mas são mais comuns do que se imagina.

Na semana passada, duas notícias antagônicas de vizinhos nossos me chamaram a atenção aqui no site do Estadão: 1) 50% dos novos casos de pessoas infectadas pelo coronavírus no Chile têm menos de 40 anos; 2) Colômbia amplia quarentena até agosto para maiores de 70 anos.

Por aqui, enquanto os números oficiais mostram um avanço da doença entre os jovens, as notícias deixam claro que as condições para que uma pessoa realmente seja grupo de risco são: estado de saúde e classe social. Isso porque os mais afetados são os que possuem doenças crônicas e que têm menos acesso a condições sanitárias e atendimento médico/hospitalar de qualidade.

De acordo com dados divulgados pela ONG Rede Nossa São Paulo, que comparou mortalidade em função de covid-19 entre bairros pobres e ricos, o fator de risco para que a doença seja fatal no Brasil é o endereço.

Em uma cultura jovem-cêntrica como a nossa, onde os mais jovens são exaltados enquanto os mais velhos são esquecidos, é preciso repensar urgentemente os valores que nos levam a esse comportamento. Caso contrário, estaremos fadados à mediocridade e à depressão. Isso porque, com sorte, todos nós chegaremos à velhice, e essa fase será cada vez mais a mais longa de nossas vidas, com o rápido envelhecimento populacional no mundo e especialmente acelerado no Brasil, em função de estarmos vivendo mais e tendo menos filhos.

O preconceito etário é ainda mais cruel no mercado de trabalho, onde a idade continua pesando no currículo e sendo motivo de desclassificação em processos seletivos e programas de demissão. Em muitas empresas ainda existe a “aposentadoria compulsória” onde a pessoa é obrigada a se aposentar (deixar a empresa) quando completa uma determinada idade. Mesmo que esteja performando bem e realizando corretamente seu trabalho.

Por isso dizemos que, em função do envelhecimento populacional e da inversão da pirâmide etária no Brasil, em breve perderemos o “bônus demográfico”, onde a maior parte da população está em idade de trabalhar. Isso porque a “idade considerada para se trabalhar” é de 15 a 64 anos, como se, aos completar 65 anos a pessoa se tornasse automaticamente inapta a realizar atividades laborais, apesar da expectativa de vida no País aumentar ano a ano.

A dificuldade para conseguir uma recolocação ou mesmo manter-se no mercado de trabalho começa muito mais cedo do que isso. Muitas vezes aos 40 anos. Aos 50 já fica dificílimo, embora muita gente diga que está no seu ápice intelectual nesta idade.

Neste período de quarentena temos visto os mais maduros entrarem de cabeça no mundo digital para realizar suas atividades sociais e profissionais online, ao mesmo tempo em que o trabalho home office virou o normal nas empresas, que inclusive estudam manter essa forma de trabalho mesmo após o fim da quarentena (algumas até permanentemente).

Ainda assim, tenho testemunhado inúmeros casos de organizações demitindo seus funcionários mais velhos em função do “grupo de risco”, perdendo assim o ativo mais necessário nesse momento: pessoas com experiência, resiliência, calma, sabedoria, liderança e empatia, que já passaram por diversas crises e trazem uma visão holística da situação, auxiliando os jovens a lidarem melhor com a incerteza e ansiedade.

A diversidade e o encontro de gerações podem dar às empresas uma ótima oportunidade para se fortalecerem em tempos de crise.

Gestores, colaboradores jovens e colaboradores maturis: mais do que nunca, é hora de deixar os preconceitos de lado, valorizar as diferenças e unir-se para passar por esse momento de forma menos traumática e mais humana. A colaboração e empatia ajudará muitas empresas a não quebrarem e deixará um legado importante para o pós-crise. Pense nisso e faça sua parte!

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